segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Proposta de Branco: Devolver o Brasil aos índios - Será que aceitam? - Acho que não!


Lendo a coluna do José Simão publicada na Folha de S. Paulo de ontem deparei-me com a expressão dita por um amigo dele: “Entre a Dilma e o Aécio, prefiro devolver o Brasil pros índios”. Isto lembrou-me a leitura de um texto publicado na revista Banas escrito pelo admirável Luis Fernando Veríssimo. Não consigo precisar a data, mas foi provavelmente entre os anos de 1967/1974, período em que o Sr. Delfin Neto fora ministro da Fazenda e nossa dívida externa atingia patamares altos com sinais de insolvência a médio prazo, inflação alta, insatisfação popular, etc. O texto é muito interessante e humorado e, em alguns pontos guarda ainda um pouco da nossa atual realidade. Decidi compartilhar com vocês.

Divirtam-se...

 
“O encontro se deu há algumas semanas. O local? Algum lugar no Planalto Central. Não posso entrar em detalhes. Presentes, com assessores, um cacique representando os índios, doravante identificado como “C”, e um representante do Governo, que chamaremos de “G”. O que segue é uma transcrição exata do que foi dito. O Governo negará, por razões óbvias.
 

C – Estou ouvindo.
G - O seguinte. Que se saiba, não existe nenhum instrumento formal de transferência de posse do Brasil, certo?
C – Certo.
G – Os portugueses foram chegando e foram tomando conta, sem qualquer cerimônia. Nem deram nada em troca da terra. Certo?
C – Deram espelhinhos.
G – Sim, mas nada de valor equivalente.
C – Certo.
G – Achavam que os índios faziam parte da paisagem, e se adonaram de tudo.
C – Isso.
G – Bom. Nossa proposta é a seguinte. Vocês movem um processo contra nós, numa corte internacional, para reaver as terras.
C – Como é?
G – Vocês nos processam por apropriação indébita da terra. Pedem nossa expulsão daqui. Afinal, se não existe nenhum documento formal, nós somos posseiros. Estamos aqui ilegalmente. Os donos legítimos da terra são vocês.
C – Isso nós sabemos. Mas, e daí?
G – Daí que, com a posse do Brasil em litígio, ninguém pode cobrar a nossa dívida externa. O caso pode durar anos, se arrastar nos tribunais. Enquanto isso, nós estamos salvos dos nossos credores.
C – Sim, mas...
G – Você não vê? É perfeito. Depois de anos, vocês perdem a causa. Fica decidido que os donos da terra somo nós. Por usucapião, sei lá. Mas a esta altura as coisas já melhoraram. A Petrobrás já descobriu petróleo. O Delfim já não é mais ministro. Ou, então, todas as plantações do país foram substituídas pela cana para fazer álcool. Ninguém come mais nada, mas pelo menos combustível não falta. Só com o minério de Carajás e o ouro de Serra Pelada, poderemos pagar a dívida antiga e todos os juros acumulados e ainda sobra para o uísque. E não der para pagar a conta, temos outra saída.
C - Qual?
G – Vocês recorrem do processo! Isso nos dará mais alguns anos. Se tivermos sorte, o mundo acabará antes que possam cobrar a nossa dívida.
C – Mas você está esquecendo uma coisa...
G – O que?
C – E se nós ganharmos a causa?
G – Já pensamos nessa possibilidade. Se vocês ganharem, ótimo. O Brasil volta a ser de vocês. Façam o que quiserem com ele. Mudem o nome...
C – E a dívida externa?
G – Vocês não se responsabilizam. Foi feita por terceiros, fraudulentamente. Se os bancos quiserem briga, serão mais algumas décadas nos tribunais. E Citibank versus índios, todas as simpatias estarão com os índios.
C – Mas vocês nos devolveriam o Brasil? Em troca de nada?
G – Bem, se vocês quiserem devolver os espelhinhos...
C – Mas não íamos querer ele de volta desse jeito. Vocês teriam que entregar como encontraram.
G – Claro.
C – Pra começar, iam limpar a praia em que desembarcou o Pedro.
G – Isso depois a gente veria. O importante é que o país seria de vocês. Quem quisesse continuar aqui, teria que virar índio. Viver da caça e da pesca. Sem muita roupa. Morar em oca. Nada de automóvel. Imagine como isso diminuiria a pressão inflacionária.
C- Mas e as grandes cidades? São Paulo, Ipanema... O que seria delas? O pessoal ia aguentar viver sem a novela?
G – Poderia haver reservas onde seria preservado o modo de vida primitivo. Parques nacionais da alta classe média, por assim dizer. Com televisão, engarrafamento de trânsito, lanchonetes... O resto da população voltaria ao estado natural, no entanto. Todo mundo de tanga. Só se vestiriam no Carnaval.
C – Temos que pensar no assunto...
G – E outra coisa. Vocês não teriam que se preocupar em administrar o país.
C – Por que?
G – Não é fácil administrar um país deste tamanho. Mesmo que volte a ser habitado só por índios. Vocês nos contratariam.
C – Como é?
G – Temos a experiência que vocês não têm. Dezesseis anos de governo. É um pequeno grupo que trabalha junto há muito tempo, todos se conhecem... Portanto, vocês ganhariam o Brasil de volta e assinariam um contrato vitalício de assessoria técnica e administrativa conosco. Nós nos livraríamos dos problemas da dívida, inflação, insatisfação popular, etc. Mas continuaríamos no governo. E...
C – Essa não.
G – Como?
C – Nada feito.
G – Mas...
C – Era só o que faltava.
G – Quer dizer que vocês recusam a proposta?
C – Se vocês quiserem continuar como caciques, têm que fazer testes para o cargo.
G – Testes?
C – Arco e flecha. Luta com sucuri. Atravessar rio com tronco nas costas. E outra coisa.
G – O que?
C – Nada de contrato vitalício. Se não forem competentes, rua. Vão ajudar as mulheres a ralar mandioca.
G – Esquece, esquece.”