Lendo a coluna do José Simão
publicada na Folha de S. Paulo de ontem deparei-me com a expressão
dita por um amigo dele: “Entre a Dilma e o Aécio, prefiro devolver o Brasil
pros índios”. Isto lembrou-me a leitura de um texto publicado na revista Banas
escrito pelo admirável Luis Fernando Veríssimo. Não consigo precisar a data,
mas foi provavelmente entre os anos de 1967/1974, período em que o Sr. Delfin
Neto fora ministro da Fazenda e nossa dívida externa atingia patamares altos
com sinais de insolvência a médio prazo, inflação alta, insatisfação popular,
etc. O texto é muito interessante e humorado e, em alguns pontos guarda ainda um pouco da nossa
atual realidade. Decidi compartilhar com vocês.
Divirtam-se...
C – Estou ouvindo.
G - O seguinte. Que se saiba, não
existe nenhum instrumento formal de transferência de posse do Brasil, certo?
C – Certo.
G – Os portugueses foram chegando
e foram tomando conta, sem qualquer cerimônia. Nem deram nada em troca da
terra. Certo?
C – Deram espelhinhos.
G – Sim, mas nada de valor
equivalente.
C – Certo.
G – Achavam que os índios faziam
parte da paisagem, e se adonaram de tudo.
C – Isso.
G – Bom. Nossa proposta é a
seguinte. Vocês movem um processo contra nós, numa corte internacional, para
reaver as terras.
C – Como é?
G – Vocês nos processam por
apropriação indébita da terra. Pedem nossa expulsão daqui. Afinal, se não
existe nenhum documento formal, nós somos posseiros. Estamos aqui ilegalmente.
Os donos legítimos da terra são vocês.
C – Isso nós sabemos. Mas, e daí?
G – Daí que, com a posse do
Brasil em litígio, ninguém pode cobrar a nossa dívida externa. O caso pode
durar anos, se arrastar nos tribunais. Enquanto isso, nós estamos salvos dos
nossos credores.
C – Sim, mas...
G – Você não vê? É perfeito.
Depois de anos, vocês perdem a causa. Fica decidido que os donos da terra somo
nós. Por usucapião, sei lá. Mas a esta altura as coisas já melhoraram. A
Petrobrás já descobriu petróleo. O Delfim já não é mais ministro. Ou, então,
todas as plantações do país foram substituídas pela cana para fazer álcool.
Ninguém come mais nada, mas pelo menos combustível não falta. Só com o minério
de Carajás e o ouro de Serra Pelada, poderemos pagar a dívida antiga e todos os
juros acumulados e ainda sobra para o uísque. E não der para pagar a conta,
temos outra saída.
C - Qual?
G – Vocês recorrem do processo!
Isso nos dará mais alguns anos. Se tivermos sorte, o mundo acabará antes que
possam cobrar a nossa dívida.
C – Mas você está esquecendo uma
coisa...
G – O que?
C – E se nós ganharmos a causa?
G – Já pensamos nessa possibilidade.
Se vocês ganharem, ótimo. O Brasil volta a ser de vocês. Façam o que quiserem
com ele. Mudem o nome...
C – E a dívida externa?
G – Vocês não se responsabilizam.
Foi feita por terceiros, fraudulentamente. Se os bancos quiserem briga, serão
mais algumas décadas nos tribunais. E Citibank versus índios, todas as
simpatias estarão com os índios.
C – Mas vocês nos devolveriam o
Brasil? Em troca de nada?
G – Bem, se vocês quiserem
devolver os espelhinhos...
C – Mas não íamos querer ele de
volta desse jeito. Vocês teriam que entregar como encontraram.
G – Claro.
C – Pra começar, iam limpar a
praia em que desembarcou o Pedro.
G – Isso depois a gente veria. O
importante é que o país seria de vocês. Quem quisesse continuar aqui, teria que
virar índio. Viver da caça e da pesca. Sem muita roupa. Morar em oca. Nada de
automóvel. Imagine como isso diminuiria a pressão inflacionária.
C- Mas e as grandes cidades? São
Paulo, Ipanema... O que seria delas? O pessoal ia aguentar viver sem a novela?
G – Poderia haver reservas onde
seria preservado o modo de vida primitivo. Parques nacionais da alta classe
média, por assim dizer. Com televisão, engarrafamento de trânsito,
lanchonetes... O resto da população voltaria ao estado natural, no entanto.
Todo mundo de tanga. Só se vestiriam no Carnaval.
C – Temos que pensar no
assunto...
G – E outra coisa. Vocês não
teriam que se preocupar em administrar o país.
C – Por que?
G – Não é fácil administrar um
país deste tamanho. Mesmo que volte a ser habitado só por índios. Vocês nos
contratariam.
C – Como é?
G – Temos a experiência que vocês
não têm. Dezesseis anos de governo. É um pequeno grupo que trabalha junto há
muito tempo, todos se conhecem... Portanto, vocês ganhariam o Brasil de volta e
assinariam um contrato vitalício de assessoria técnica e administrativa
conosco. Nós nos livraríamos dos problemas da dívida, inflação, insatisfação
popular, etc. Mas continuaríamos no governo. E...
C – Essa não.
G – Como?
C – Nada feito.
G – Mas...
C – Era só o que faltava.
G – Quer dizer que vocês recusam
a proposta?
C – Se vocês quiserem continuar
como caciques, têm que fazer testes para o cargo.
G – Testes?
C – Arco e flecha. Luta com
sucuri. Atravessar rio com tronco nas costas. E outra coisa.
G – O que?
C – Nada de contrato vitalício.
Se não forem competentes, rua. Vão ajudar as mulheres a ralar mandioca.
G – Esquece, esquece.”

