quinta-feira, 9 de outubro de 2014

HCor - Meu "Day Clinic" - Uma aventura!


Há aproximadamente uns sete anos tomo um medicamento para regular a pressão arterial que fora prescrito por um médico cardiologista do HCor. Durante todo este período minha pressão tem mantendo-se excelente. Porém, de vez em quando, principalmente recentemente, perguntava a mim mesmo se seria necessário dar continuidade a medicação, visto estar levando uma vida mais saudável, equilibrada, com bastante atividade física, ter reduzido 10 quilos no meu peso corporal e ainda ter obtido um ótimo resultado de um teste ergométrico realizado em Novembro passado, etc.. Desta forma, decidi fazer nova avaliação cardiológica.
Na primeira consulta tive uma avaliação bastante positiva da médica que passaria a cuidar do meu caso (Drª Isabela Brotto) que já tinha em mãos o resultado de um eletrocardiograma realizado vinte minutos antes da consulta. Porém, mais exames precisariam ser feitos para uma avaliação mais detalhada, inclusive o acoplamento de um holter por vinte e quatro horas.
O primeiro exame que realizei foi o Teste Ergométrico Cardiopulmonar. Durante o exame cheguei até a etapa 13 a 12 km por hora. Me sentia um verdadeiro atleta, pensava, neste vou ter um resultado excelente, porque, com os meus bastantes anos de vida, 12 kph em cima de uma esteira não é para qualquer um.
Meu orgulho durou somente durante o período de repouso após o esforço. Assim que o exame foi completado, a médica que acompanhou o teste perguntou se eu tinha conhecimento que possuía arritmia cardíaca. Respondi que não. Então ela emendou – o Sr. tem uma excelente aptidão cardiorrespiratória, mas em alguns momentos do teste o Sr. apresentou arritmias, recomendo que o Sr. suspenda toda e qualquer atividade física até voltar a conversar com a Drª Isabela. Fiquei deprimido.
Voltando à consulta, a Drª confirmou tudo o que a sua colega tinha relatado e ainda proibiu-me de fazer minhas caminhadas, mesmo que tranquilas. Solicitou de imediato um exame chamado Angiografia Coronária. Agendei.
No dia do exame (sexta-feira passada) cheguei aqui no Hcor às 6:45hs, pois tinha sido informado que passaria o dia aqui. Fiquei internado no nono andar. Os preparativos iniciaram-se de imediato: jejum absoluto após o café leve da manhã, soro, alguns medicamentos, avental cirúrgico, etc.
Por volta das 11:00hs fui conduzido para a sala de hemodinâmica onde seria realizado a Angiografia. Apesar de todas as informações e orientações de que o exame iria transcorrer de forma tranquila e rápida, não conseguia evitar minha aflição.

A sala parecia uma espaçonave tipo “state of the art”, era impressionante. Uma excelente equipe de trabalho me tranquilizou bastante, a única coisa que não gostei foi que na tricotomia (raspagem de pelos) do meu “bilau” só rasparam dos lados, ficou parecendo a cabeça de um índio moicano, um topetezinho no centro da área de diversão!
O exame em si é rápido, os procedimentos de preparo antes e depois é que demoram, desta forma, retornei ao quarto por volta das 14:00hs. O almoço foi servido!
Além da medicação, uma recomendação severa:  - o Sr. terá que manter a perna direita totalmente imóvel até as 17:30 hs. Isto significava não levantar da cama até então.
Por volta das 15:00hs começou meu drama. Senti necessidade de urinar, segurei o máximo, já não conseguia identificar entre as causas naturais e o procedimento o que doía mais. Chamei a enfermagem.

Através de um sistema eletrônico de comunicação expliquei o que estava acontecendo. Em seguida adentra o quarto um técnico de enfermagem com um “compadre” na mão e diz: - o Sr. terá que usar isto aqui - mostrando-me o “compadre” e, saiu dizendo que retornava em minutos. Fazer o que né?! Sempre tem a primeira vez. Sem mexer a perna direita ajeitei-me na cama, acomodei o “compadre” entre as pernas e lá vamos nós! Uhuh! Uhuh! Que alivio!
Cinco minutos depois, percebi que não era só o número 1 que a natureza exigia! Um número 2 vinha chegando em alta velocidade, comecei a respirar fundo, agoniar em silêncio, fui administrando, tinha altos e baixos, por um instante pensei em quebrar a regra e ir para o banheiro. Num dado momento entra um médico no quarto com a notícia do resultado do exame.
- Sr. Clovis, o seu exame apresentou um resultado não muito favorável, mas nada preocupador, por ter sido descoberto em tempo. O Sr. possui duas artérias que estão comprometidas, uma em 70% e outra em 90%. Precisamos fazer uma angioplastia coronária com implante de “stent” o mais rápido possível.

Temos duas opções: o Sr. continuar internado e após os procedimentos administrativos fazermos a angioplastia ou o Sr. ir embora hoje e nós agendarmos para daqui a uns 20 dias. – Então perguntei: - o que o Sr. recomenda? – Ele respondeu: - fique internado. – Concordei, porém, aproveitei a oportunidade e disse: Dr. estou sentindo cólicas intestinais (chique né), estou que não aguento mais, são 16:30hs será que não dá para me liberar antes das 17:30hs? – Então ele respondeu: - aguente pelo menos até as 17:00hs.
Despediu-se dizendo que iria providenciar a documentação de internação, e que eu seria transferido de quarto após o jantar.
Às 16:50hs chamei a enfermagem novamente, a coisa “tava” preta, iria entupir mais veias! Uma técnica de enfermagem adentrou o quarto e perguntou em que poderia ajudar. Disse que tinha conversado com médico e que o mesmo tinha me liberado para as 17:00hs, porém, eu não suportava mais e precisava ir ao banheiro e só faltavam alguns minutinhos. Então ela delicadamente disse: - “Nannaninanão!” De acordo com o seu prontuário médico o Sr. só poderá levantar-se da cama as 17:30hs e com o nosso acompanhamento. – Tentei explicar a mudança concedida pelo médico, mas não teve acordo, ela manteve firme sua postura. – Então como faço? - Disse eu. – Ela responde: - espere um instante que eu vou buscar uma “comadre”. – E saiu.
Meu Deus do céu, vocês não sabem o que é passar por isso. Ela retornou com a “comadre” e colocou uma folha de plástico liso transparente em sua volta. Eu estava ainda vestido com o avental cirúrgico, então pediu-me que apoiasse os dois cotovelos na cama e apoiasse também a perna esquerda para poder levantar o quadril e encaixar a “comadre”. Feito isto, perguntou-me se estava tudo bem, e que eu relaxasse, (...como relaxar num momento como este?), porque talvez eu não estivesse acostumado com aquela situação, mas ela estava, fazia aquilo todos os dias. Antes dela sair do quarto, percebi que a “comadre” tinha escorregado devido à pressão do meu do meu corpo, levantei o quadril novamente para os devidos ajustes e percebi que o plástico transparente tinha grudado na minha bunda, ela removeu-o e encaixou-o novamente na “comadre”. Percebi neste momento que a finalidade do plástico era para não sujar a “comadre”. Disse ela, que iria sair do quarto para que eu ficasse mais à vontade e sem nenhum tipo de constrangimento. Me deu vontade de falar para ela: que isso! Imagina! Estou me sentindo bastante confortável! Pode ficar aqui! Etc....
Imaginem o “sanduba”! A comadre embaixo, o plástico no meio e a minha bunda em cima! Só faltava o recheio! Pensei: com o plástico grudado na minha bunda, qualquer “barro” que saísse iria lambuzar-me generosamente. A vontade foi embora rapidinho!
Ás 17:10hs ela entra novamente no quarto e pergunta: - e aí Sr. Clovis? Conseguiu? – Respondi que não e solicitei que retirasse a “comadre”, pois ela estava me incomodando e, que suportaria o meu martírio por mais vinte minutos!
Dito e feito! 17:30 ele retornou. Abrolhavam algumas lágrimas disfarçadas em meus olhos! Porém, ainda antes de levantar-me tive que fazer uns exercícios com a perna para normalizar a circulação sanguínea.
Finalmente pude sentar no trono! A sensação que senti fora idêntica ao relaxante inebriante que provoca uma segunda taça de um Merlot chileno...
Ontem, fiz a angioplastia e dois “stent” foram implantados. O procedimento foi tranquilo. Terei alta na sexta-feira ou no sábado.