Há aproximadamente uns sete anos
tomo um medicamento para regular a pressão arterial que fora prescrito por um
médico cardiologista do HCor. Durante todo este período minha pressão tem mantendo-se
excelente. Porém, de vez em quando, principalmente recentemente, perguntava a
mim mesmo se seria necessário dar continuidade a medicação, visto estar levando
uma vida mais saudável, equilibrada, com bastante atividade física, ter
reduzido 10 quilos no meu peso corporal e ainda ter obtido um ótimo resultado
de um teste ergométrico realizado em Novembro passado, etc.. Desta forma,
decidi fazer nova avaliação cardiológica.
Na primeira consulta tive uma
avaliação bastante positiva da médica que passaria a cuidar do meu caso (Drª
Isabela Brotto) que já tinha em mãos o resultado de um eletrocardiograma
realizado vinte minutos antes da consulta. Porém, mais exames precisariam ser
feitos para uma avaliação mais detalhada, inclusive o acoplamento de um holter
por vinte e quatro horas.
O primeiro exame que realizei
foi o Teste Ergométrico Cardiopulmonar. Durante o exame cheguei até a etapa 13
a 12 km por hora. Me sentia um verdadeiro atleta, pensava, neste vou ter um
resultado excelente, porque, com os meus bastantes anos de vida, 12 kph em cima
de uma esteira não é para qualquer um.
Meu orgulho durou somente
durante o período de repouso após o esforço. Assim que o exame foi completado,
a médica que acompanhou o teste perguntou se eu tinha conhecimento que possuía
arritmia cardíaca. Respondi que não. Então ela emendou – o Sr. tem uma
excelente aptidão cardiorrespiratória, mas em alguns momentos do teste o Sr.
apresentou arritmias, recomendo que o Sr. suspenda toda e qualquer atividade
física até voltar a conversar com a Drª Isabela. Fiquei deprimido.
Voltando à consulta, a Drª
confirmou tudo o que a sua colega tinha relatado e ainda proibiu-me de fazer
minhas caminhadas, mesmo que tranquilas. Solicitou de imediato um exame chamado
Angiografia Coronária. Agendei.
No dia do exame (sexta-feira
passada) cheguei aqui no Hcor às 6:45hs, pois tinha sido informado que passaria
o dia aqui. Fiquei internado no nono andar. Os preparativos iniciaram-se de
imediato: jejum absoluto após o café leve da manhã, soro, alguns medicamentos,
avental cirúrgico, etc.
Por volta das 11:00hs fui
conduzido para a sala de hemodinâmica onde seria realizado a Angiografia. Apesar de todas as
informações e orientações de que o exame iria transcorrer de forma tranquila e
rápida, não conseguia evitar minha aflição.
A sala parecia uma espaçonave tipo
“state of the art”, era impressionante. Uma excelente equipe de trabalho me
tranquilizou bastante, a única coisa que não gostei foi que na tricotomia
(raspagem de pelos) do meu “bilau” só rasparam dos lados, ficou parecendo a
cabeça de um índio moicano, um topetezinho no centro da área de diversão!
O exame em si é rápido, os
procedimentos de preparo antes e depois é que demoram, desta forma, retornei ao
quarto por volta das 14:00hs. O almoço foi servido!
Além da medicação, uma
recomendação severa: - o Sr. terá que
manter a perna direita totalmente imóvel até as 17:30 hs. Isto significava não
levantar da cama até então.
Por volta das 15:00hs começou
meu drama. Senti necessidade de urinar, segurei o máximo, já não conseguia identificar
entre as causas naturais e o procedimento o que doía mais. Chamei a enfermagem.
Através de um sistema eletrônico de comunicação expliquei o que estava
acontecendo. Em seguida adentra o quarto um técnico de enfermagem com um
“compadre” na mão e diz: - o Sr. terá que usar isto aqui - mostrando-me o
“compadre” e, saiu dizendo que retornava em minutos. Fazer o que né?! Sempre
tem a primeira vez. Sem mexer a perna direita ajeitei-me na cama, acomodei o
“compadre” entre as pernas e lá vamos nós! Uhuh! Uhuh! Que alivio!
Cinco minutos depois, percebi
que não era só o número 1 que a natureza exigia! Um número 2 vinha chegando em
alta velocidade, comecei a respirar fundo, agoniar em silêncio, fui
administrando, tinha altos e baixos, por um instante pensei em quebrar a regra
e ir para o banheiro. Num dado momento entra um médico no quarto com a notícia
do resultado do exame.
- Sr. Clovis, o seu exame
apresentou um resultado não muito favorável, mas nada preocupador, por ter sido
descoberto em tempo. O Sr. possui duas artérias que estão comprometidas, uma em
70% e outra em 90%. Precisamos fazer uma angioplastia coronária com implante de
“stent” o mais rápido possível.
Temos duas opções: o Sr. continuar internado e
após os procedimentos administrativos fazermos a angioplastia ou o Sr. ir embora
hoje e nós agendarmos para daqui a uns 20 dias. – Então perguntei: - o que o
Sr. recomenda? – Ele respondeu: - fique internado. – Concordei, porém,
aproveitei a oportunidade e disse: Dr. estou sentindo cólicas intestinais
(chique né), estou que não aguento mais, são 16:30hs será que não dá para me
liberar antes das 17:30hs? – Então ele respondeu: - aguente pelo menos até as
17:00hs.
Despediu-se dizendo que iria
providenciar a documentação de internação, e que eu seria transferido de quarto
após o jantar.
Às 16:50hs chamei a enfermagem
novamente, a coisa “tava” preta, iria entupir mais veias! Uma técnica de
enfermagem adentrou o quarto e perguntou em que poderia ajudar. Disse que tinha
conversado com médico e que o mesmo tinha me liberado para as 17:00hs, porém,
eu não suportava mais e precisava ir ao banheiro e só faltavam alguns
minutinhos. Então ela delicadamente disse: - “Nannaninanão!” De acordo com o seu prontuário médico o Sr. só
poderá levantar-se da cama as 17:30hs e com o nosso acompanhamento. – Tentei
explicar a mudança concedida pelo médico, mas não teve acordo, ela manteve
firme sua postura. – Então como faço? - Disse eu. – Ela responde: - espere um
instante que eu vou buscar uma “comadre”. – E saiu.
Meu Deus do céu, vocês não sabem
o que é passar por isso. Ela retornou com a “comadre” e colocou uma folha de
plástico liso transparente em sua volta. Eu estava ainda vestido com o avental
cirúrgico, então pediu-me que apoiasse os dois cotovelos na cama e apoiasse também
a perna esquerda para poder levantar o quadril e encaixar a “comadre”. Feito
isto, perguntou-me se estava tudo bem, e que eu relaxasse, (...como relaxar num
momento como este?), porque talvez eu não estivesse acostumado com aquela
situação, mas ela estava, fazia aquilo todos os dias. Antes dela sair do quarto,
percebi que a “comadre” tinha escorregado devido à pressão do meu do meu corpo,
levantei o quadril novamente para os devidos ajustes e percebi que o plástico
transparente tinha grudado na minha bunda, ela removeu-o e encaixou-o novamente
na “comadre”. Percebi neste momento que a finalidade do plástico era para não
sujar a “comadre”. Disse ela, que iria sair do quarto para que eu ficasse mais
à vontade e sem nenhum tipo de constrangimento. Me deu vontade de falar para
ela: que isso! Imagina! Estou me sentindo bastante confortável! Pode ficar
aqui! Etc....
Imaginem o “sanduba”! A comadre
embaixo, o plástico no meio e a minha bunda em cima! Só faltava o recheio!
Pensei: com o plástico grudado na minha bunda, qualquer “barro” que saísse iria
lambuzar-me generosamente. A vontade foi embora rapidinho!
Ás 17:10hs ela entra novamente no
quarto e pergunta: - e aí Sr. Clovis? Conseguiu? – Respondi que não e solicitei
que retirasse a “comadre”, pois ela estava me incomodando e, que suportaria o meu
martírio por mais vinte minutos!
Dito e feito! 17:30 ele
retornou. Abrolhavam algumas lágrimas disfarçadas em meus olhos! Porém, ainda
antes de levantar-me tive que fazer uns exercícios com a perna para normalizar
a circulação sanguínea.
Finalmente pude sentar no trono!
A sensação que senti fora idêntica ao relaxante inebriante que provoca uma
segunda taça de um Merlot chileno...
Ontem, fiz a angioplastia e dois
“stent” foram implantados. O procedimento foi tranquilo. Terei alta na
sexta-feira ou no sábado.
