quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Infância Maravilhosa - A rua de casa - II

continuação...

O bairro era constituído por famílias da mesma classe social, exceto uns e outros, mas eram poucos os mais abastados. Em casa éramos em quatro, eu, minha irmã e meus pais, mas existiam famílias com até dez filhos. Eu e mais uns seis ou sete moleques éramos uns três/quatro anos mais novos que a maioria dos primogênitos de outras famílias.  Assim como nós, os mais velhos também tinham a sua "panelinha". Algumas brincadeiras eram conjuntas, outras não, isto deixava a gente p... da vida.
Eles certa vez, numa das esquinas da rua casa, em um quarteirão totalmente de terrenos vazios, capinaram, destocaram e fizeram da área um campinho de futebol com trave e tudo!  O campo era totalmente irregular, era caído para os fundos e em uma das metades caído para a esquerda. Ali só eles se divertiam. Desta forma, tínhamos que nos contentar com o trecho plano da rua para jogarmos bola, mas não desistíamos, vivíamos implorando para brincar no meio deles, vez em quando dava certo, não tinha alegria maior do que vestir a camisa do time da vila, do Marari FC, dava até "status". Pois aquele era o campo oficial da vila, era nele que ocorria as peladas contra os times de outras vilas, valendo flâmulas e, em campeonatos, valendo troféus. Mesmo assim, nossa panelinha mantinha um timinho de futebol que participava de jogos contra adversários de outras ruas e até de outras vilas também valendo flâmulas, no famoso conceito do "vira 6 e termina 12".

Dentro do meu grupo etário, eu era considerado encrenqueiro, brigão, boca suja, etc. As mães dos outros garotos tinham o hábito de dizer: "parece que este menino não teve berço". Ledo engano delas! Muitas, anos mais tarde, mudaram completamente de opinião!

Viviam reclamando com a minha mãe. Mas a bem da verdade, nunca existiu maldade no meu coração, eu tinha sim era bastante espiritualidade, e gostava de grossas reinações. Às vezes eu tinha a mania de chegar quietinho por detrás dos meninos e rapidamente abaixar os calções deles até o joelho, deixando-os semi-nus, pronto era a conta, tinham uns mais "fresquinhos" que já saíam chorando e correndo pra casa para contar para suas mães o que eu tinha feito. Certa fez achei uma bola de madeira, daquelas usadas no jogo de "bocha", ela vivia semi-enterrada no gramado que tinha no quintal de casa, ela era marrom e, no meio da grama não dava para distinguir se era de madeira ou borracha. Num domingo recebemos a visita de parentes em casa, entre eles estava um primo meu, que era uns anos mais novo, então fomos brincar no gramado, simulei com duas latas vazias a trave de um gol, coloquei a bola de madeira há uns metros de distância e falei pra ele: - vai primo, enche o pé! "Táqueupariu"! Ele foi... e encheu mesmo... com fé! Mesmo estando calçado, o dedão do pé dele ficou inchado por duas semanas e eu de castigo quase pelo mesmo período, a bola rolou uns dois metros. Ele não tinha sido a primeira vítima da pegadinha...
Quando as mães reclamavam com a dona Diva sobre o meu comportamento eu não esquentava muito, era normal isso acontecer, mas quando envolvia os pais dos moleques aí o bicho pegava. Um dia apareceu um cidadão lá porta de casa, com o filho segurado por uma das mãos e na outra com a camisa do pirralho manchada de branco, o nome dele era sargento Wilson, olha a encrenca em que fui me meter.

Era época do carnaval. O sargento falou para minha mãe que eu tinha espirrado com uma bisnaga de plástico, água com cloro na camisa do filho dele, que a camisa era nova e tinha se estragado... e bórórí bóroró. Não me lembro o que a dona Diva resolveu com ele, só me lembro que passei o carnaval sem ir para rua brincar, além claro, de umas cintadas na bunda.
Diz a lenda, que certa ocasião, uma vizinha nossa chamada dona Izolina (parece até nome de remédio), encabeçou um abaixo-assinado visando a expulsão de nossa família da vila devido às minhas traquinices. Ainda bem que a solicitação não era de interesse comum, a ideia não foi adiante, nasceu e morreu no mesmo dia, meus pais fingiram que não souberam do ocorrido, mas a partir daquele dia fiquei de olho na "talzinha", pois a atitude dela rendeu-me umas puxadas de orelha em casa.

Quando grossas reinações eram delatadas pelas vizinhas, o castigo vinha na sequência. Apanhava de chinelo, cinta, vara verde, etc., minha mãe usava o que tinha mais à mão, às vezes em seguida me prendia no banheiro por horas, depois ia dar continuidade aos seus trabalhos de costura, ficava tão envolvida, que de vez em quando esquecia de mim. Com minha irmã nada disso acontecia, então, quando eu pressentia que a pena seria demorada, apelava para ela e com uma voz de injustiçado pedia para ela através do vitrô que me trouxesse umas bananas, pão, bolachas, etc., para que eu me alimentasse até o término da punição. Ela sempre cooperou, gostava muito de mim. O "castigo" neste formato não durou muito tempo.

Como eu era espirituoso! O banheiro era o único lugar da casa que tinha alçapão e com o tempo aprendi a escalar as paredes, apoiando os pés nas travessas da porta e atingir o telhado, depois era só tirar umas telhas, pular no terreno vizinho, e dali para a rua, respirando o ar da liberdade. Uma hora depois estava de volta pelo mesmo caminho que saía. Quando minha mãe abria a porta, eu saía de lá com um ar triste, sofrido, mas por dentro eu estava explodindo de alegria...
 
continua na próxima semana...