terça-feira, 7 de outubro de 2014

Infância Maravilhosa - A rua de casa! - I

...continuação
 
...a rua que sucedeu a trilha que existia em frente de casa tornou-se um parque de diversões! Era estreita, devia ter no máximo uns dez metros de largura, a parte plana onde brincávamos tinha uma extensão de aproximadamente cinquenta metros, o que, quando se é criança, parece uma área de proporções enorme. Foi ali, então, que passei brincando a maior parte da minha infância.
Este trecho da rua foi tudo para nós, tanto para meninos quanto para meninas, vinham até crianças de outras ruas para ali brincarem. Minha mãe (a dona Diva) tinha o hábito de dizer: "...parece que tem doce naquele pedaço, meu Deus do céu!" O espaço que tinhamos, com as marcações necessárias, era transformado rapidamente em quadra esportiva de acordo com a modalidade que queríamos nos divertir. Assim, ali jogávamos futebol, taco, brincávamos com bolinhas de gude em todas as suas modalidades (uma birosca, quatro biroscas, triângulo e mata-mata), brincávamos de pular pauzinhos, rodávamos pião, jogávamos figurinha a "bafo", lia-mos ou só via-mos "catecismos" (Esta era parte cultrural do crescimento infantil).

"Catecismos"
Se você avistasse uma rodinha fechada de moleques, todos em absoluto silêncio, numa concentração profunda, poderia apostar que um catecismo estava sendo exibido vagarosamente, página por página, repetidas várias vezes). Ali também era organizado o campeonato de cuspe e outros ainda mais indecentes como por exemplo o do "Processo Unilateral de Normalização Hormonal por Estimulação Temporária Auto-induzida" (una as iniciais maiúsculas para ter uma definição mais clara), etc., enfim, era uma verdadeira área recreativa e cultural (kkkkk!). Não precisavamos de mais nada para sermos felizes. Era a nossa "rualandia"!
De um lado da rua, na parte plana, existia uma chácara, que beirando sua cerca que fazia frente para a rua, tinha vários pés de eucaliptos, que nos dias ensolarados, em parte coava o sol e, em outra proporcionava sombra tranquila e fechada. Era o local onde tambem, nas tardes quentes, ficavamos sentados filosofando sobre a vida e, por falta de alguma coisa mais interessante para fazer, ficávamos à procura no chão de sementinhas secas de eucaliptos, elas pareciam um piãozinho, que com o dedo polegar e o indicador colocávamos a rodar.
Sementes de eucaliptos
Além dos eucaliptos, a chácara na parte interna tinha também uns pés de goiaba, ameixa, laranja, gabiroba, etc., que de vez e sempre à pretexto de pegar-mos uma bola que tinha sido lá jogada ou uma pipa que lá tinha caído ou ainda a captura de uma galinha fugida do seu galinheiro que lá tinha se instalado, eram visitados por nós à cata de frutas da estação.
Certa vez, eu estava encarapitado em um pé de ameixa, me deliciando com as amarelinhas, quando distraidamente esbarrei uma das orelhas em um galho que tinha em uma de suas folhas uma fdp de uma taturana que de imediato provocou uma queimação danada a ponto de derrubar-me da árvore de tanta dor. Fui correndo pra casa gritando e chorando que nem um doido. O médico mais próximo ficava a uns três quilômetros de casa e tinha que ser percorrido a pé. A dona Diva pegou-me pelo braço e lá fomos nós, sujo, do jeito que eu estava. Eu aos berros durante o caminho todo e minha mãe dizendo: "tá vendo, fica fazendo arte, Deus castiga!" e eu dizia: "fica quieta, não enche tá, tá doendo muito mãe!", e aos prantos, com o nariz escorrendo, que de vez em quando, limpava com o braço, eu caminhava.

O nome do médico era Drº Francisco (o mesmo que tempo atrás tinha tirado um grão de feijão do meu ouvido, eu já era um cliente conhecido de outros carnavais). Lá chegando, fiz um baita de um escândalo na sala de espera que estava lotada de pessoas, xingava o médico e todos os seus ascendentes e descendentes com todos os mais terríveis palavrões que eu tinha no meu repertório de moleque reinador. O Drº Francisco ouvindo aquele fuzuê todo, de imediato veio atender-nos.
A orelha já era grande, ficou pior, inchada e vermelha, parecia meio "Dumbo" o que foi motivo de gozações pelos outros moleques da vizinhança. Demorou uns quatro dias para voltar ao normal após o uso de uma pomadinha milagrosa. Aprendi com aquele episódio. Daquele dia em diante, minhas novas investidas à chácara passaram a ser mais cautelosas.
Do lado direito à nossa casa era onde ficava a parte plana da rua e do lado esquerdo ela possuia uma inclinação mais ou menos acentuada, era o suficiente para brincármos com carrinhos de rolimã numa distância de aproximadamente uns duzentos metros rua abaixo. Na parte frontal, os lotes (terrenos) iniciando já do lado da chácara eram vazios, cobertos de arborização nativa baixa e inclinados para os fundos o que proporcionava uma excelente área para empinar pipa, fazer cabanas, brincar de esconde-esconde, etc..
O terreno de casa era cercado com arame farpado pregados em toras de eucaliptos, possuía um portãozinho de madeira, cuja trava, era uma argola de arame liso que ficava na parte superior. difícil de ser alcançada por uma criança. Quando não tinha permissão da minha mãe, minhas escapadinhas para a rua se davam através desta cerca.
De tanto a dona Diva ir buscar-me na rua com a cinta na mão e eu ter que voltar correndo pra casa para não apanhar na frente dos outros moleques adquiri a habilidade de um gato para passar voando pelos vãos da cerca entre os arames farpados, mesmo assim, volta e meia, rasgava um calção ou arranhava os braços, joelhos, pernas ou as costas...era um "The Flash" tupiniquim infantil...
 
continua na próxima semana...