quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Infância Maravilhosa - Primeiros anos de vida! - II


...continuação
 
....camisas só usávamos para sair ou se estivesse o tempo frio, vim conhecer cueca depois dos meus dez anos de idade, mesmo porque, até então, mijava na cama todas as noites.
Durante o dia andava descalço (para brincar na rua, jogar bola, ir ao empório, etc.), calçados eram somente para passear, ir para escola, isto é, eventos "sociais". O calçado mais popular naquela época era a "Alpargatas Roda" o símbolo máximo da pobreza, depois vieram o "Sete Vidas" e "Conga/Bamba" na sequência as sandálias Havaianas. Usei muito também o sapato Verlon, feito de plástico, que saía do pé toda hora devido a transpiração, o pé ficava escorregando dentro dele.  Por ser elaborado com material plástico era fácil de abrir nas laterais (rasgar), então, para quebrar um galho até comprar outro a gente dava uns pontos com barbante. Imaginem como ficava lindo. Os calçados de couro que usei viviam com os bicos ralados, eram tropeçadas constantes, eu não gostava muito deles, principalmente quando eram novos. Como machucavam os pés! O hábito de andar descalço fazia com que sempre andasse machucado, as vezes eram tropeços e topadas que arrancavam a unha do dedão, furo na sola do pé com pregos enferrujados, cortes com caco de vidro, etc.
Tudo curava-se com a maior simplicidade, ou seja, mercúrio cromo, água oxigenada, pó pra tapá taio" (sulfanilamida da Squibb) e um pedaço de pano, (gase, atadura e esparadrapo eram coisas raras, só para "grandes machucados" ou "eventos sociais"). Quando o acidente era provocado por um prego enferrujado precisava-se de uma técnica mais elaborada que consistia na mistura de fumo de corda e urina, fervia-se ambos e depois aplicava no local e deixava protegido o local com um pano durante uma semana ou mais, era tiro e queda o remédiozinho.
Brinquedos só ganhávamos no Natal e era um só por ano, era aquele que o Papai Noel trazia mediante solicitação via carta e ainda após uma rigorosa análise do seu comportamento durante o ano. Não era usual, pelo menos na nossa família, você ganhar presentes dos avós, tios, padrinhos, etc. como é hoje, então, esta época era muito esperada.
Os meus presentes não duravam mais que dois meses, então precisava criar os meus por mim mesmo para passar o resto do ano, o que não era difícil, material para isto tinha de sobra, eu não podia ver uma construção de casa que logo já ia fazer uma visitinha atrás de pedaços de madeira (caibros, sarrafos e tábuas). Com um pedaço de caibro cortado de forma chanfrada, um prego, uma lata de sardinha um martelo, em um minuto, um caminhãozinho com caçamba ficava pronto. Com uma ou mais latas vazias do leite "Sol", terra e um pedaço de arame, em poucos instantes você criava um "roletezinho de puxar", e assim, bambolê com pneu de bicicleta, carrinhos de rolimã, tratores de madeira, carrinhos feitos com carretéis de linha, ônibus "imaginário", pé de lata, perna de pau, patinetes, eram engenheirados, era só botar a criatividade para funcionar e começar a brincar.
Além disso, tínhamos o que se poderia dizer: as brincadeiras de épocas, que eram: empinar pipa, rodar pião, jogar bolinha de gude, brincar de polícia e ladrão, jogar taco, jogar bola, pular corda, cobra cega, passar anel (que era uma puta sacanagem), fazer cabanas no mato, brincar de casinha, etc. (mais adiante conversaremos mais sobre estas brincadeiras).
Com passar do tempo, uma rua de terra vermelha substituiu a trilha que existia em frente da nossa casa, lembro-me do dia em que o trator de esteira passou fazendo a terraplanagem, o trator fascinava qualquer moleque, sua cor amarela, o barulho do motor, sua força, tudo aquilo dava um brilho especial aos olhos e os deixavam rasos d'agua. Vinham até moleques de outras ruas assistir de perto aquele trabalho colossal. Quando a máquina parava, fazíamos fila para dar uma subidinha no equipamento, sentar no banco do tratorista, girar o volante, buzinar, etc., era assunto pra mais de um mês, sem contar, com que orgulho, nós contávamos para os outros que um trator estivera em nossa rua. Era muita prosperidade...
...voltando ao assunto sobre mijar na cama: Era um trauma! Por causa disto só dormia em casa, quando tinha que dormir fora de casa era um caos, ficava acordado até tarde da noite e às vezes nem dormia, tinha vergonha. 
Por mais medidas que tomasse para evitar mijar enquanto dormia, sempre acontecia, não tinha controle. Não bebia água à noite, ia ao banheiro antes de deitar, não ficava perto de fogueira à noite, fazia simpatias, etc. Não tinha jeito, minha mãe levou-me ao médico e segundo o diagnóstico dele eu era uma criança despreocupada e que isso só iria mudar quando começasse a preocupar-me com a vida. O médico estava enganado. Ainda bem!, parei de mijar na cama aos dez anos de idade e não estava nenhum pouquinho preocupado com a vida! Com certeza!...
 
...continua na próxima semana.